Inteligência emocional também se aprende em casa


Complexo. Desafiador. Competitivo. Acelerado. Estas são apenas algumas das características do nosso tempo. As previsões apontam para uma vida cada vez mais imprevisível, instável e disruptiva. Isso pode ser devastador para aqueles que não estiverem preparados com uma boa dose de inteligência emocional.


Já se aponta para mais de 2 bilhões de postos de trabalho extintos no mundo até 2030. Segundo Yuval Harari, o grande receio do ser humano de nosso tempo é a dispensabilidade. Quem vai querer viver ou contratar uma pessoa mesquinha, arrogante, mimada, folgada, acomodada? Uma pessoa mal educada corre sim o risco de ser riscada da história no futuro breve.


As competências cognitivas, aquelas que aprendemos na escola, tais como a numeração, sequenciamento, letramento já não bastam para conquistar respostas que nos conduzam a uma vida boa. Em diversas pesquisas acadêmicas se reforça hoje em dia a necessidade de incorporar no currículo pleno das escolas as chamadas competências socioemocionais, dentre as quais destaca-se a inteligência emocional. Este tema está na fundação, no cerne de todos os trabalhos da Metodologia OPEE que foi criada no começo do século, no ano de 2001, justamente diante do boomda internet e de diversas mudanças na formação das famílias e no mercado de trabalho digitalizado que trouxeram oportunidades fantásticas e também problemas e desafios novos, que ainda estamos compreendendo.


Questões como a despoluição dos mares, terrorismo, risco ambiental, empregabilidade em tempos de inteligência artificial, longevidade, drogas e tantas outras não se resolvem por decretos nem tampouco com decisões pontuais. Elas demandam trabalho em equipe, ajustes de interesses conflituosos, negociações multilaterais, persistência, sabedoria. Como poderemos obter uma vida boa se nossos filhos e alunos forem criados sem a disposição à empatia, sem autocontrole, sem automotivação para perseverar, ou sem percepção sobre timing e sensibilidade social? Estas são apenas algumas das características das pessoas com boa inteligência emocional.


É ela que forma a ponte entre a inteligência e a sabedoria. Pessoas inteligentes podem criar bombas. Pessoas sábias encontram formas de negociar a paz. Pessoas inteligentes sabem fazer contas. Pessoas sábias multiplicam saberes.


Pode parecer distante tudo isso, não é mesmo? Ok, vamos trazer o tema mais para perto. Já parou para pensar se os amigos do seu filho gostam da companhia dele? Se ele tem mostrado força de vontade para persistir quando não encontra a solução para um trabalho escolar logo de primeira? O modo como seu filho se comporta com profissionais em casa, no supermercado, ou no prédio demonstra afeto e respeito? Que tal imaginar se a educação que seu filho mostra no dia a dia fosse avaliada na hora que ele for procurar emprego ou sócios para um negócio?


É ao longo de toda uma vida, nas mais diversas situações cotidianas que aproveitamos para ensinar a um filho lições importantes que moldam seu caráter e o preparam para se tornarem pessoas que façam a diferença no mundo.


A boa notícia é que ela se trata de uma competência treinável. Todos podemos aprendê-la. Por outro lado, é bom saber que dá trabalho ensinar isso em casa. Justamente por isso, não são poucas as famílias que têm se eximido da sua parcela de responsabilidade de educar dentro de casa nas mais simples situações do dia a dia.


Diante dos altos índices de adoecimento mental de nossas crianças e adolescentes, olhando o assustador número de pessoas que têm se perdido para o uso abusivo das drogas e do álcool, se tivermos a coragem de olhar os perigos das muitas violências que os filhos podem sofrer ou cometer, e se tivermos a dignidade de olhar de frente os perigos do suicídio que rondam tantas famílias na atualidade, veremos que não há motivos ou desculpas para nos esquivarmos de nossa responsabilidade diante das novas gerações deste país.


As crianças e adolescentes de hoje cresceram ouvindo todos os dias sobre corrupção, sobre os desmandos de tantas instituições públicas e privadas, de descaso, de desmatamento e desastres que poderiam ser evitados. É justamente por isso que envolvemos nossos alunos em ações transformadoras, engajando-os uns com os outros e sensibilizando para que todos se sintam responsáveis pelo próprio futuro e destino que nossa sociedade tomará. É por isso que reforçamos sistematicamente  os valores humanos.


Eles merecem mais de nós. Eles precisam demais de nós. É preciso reconhecer que tanto em sala de aula como na sala de casa se ensina valores, caráter, virtudes.


Chega de omissão. Chega de tanto mimo. Chega de desculpas. Chega de tanta tela de celular entre as pessoas. Chegue mais perto para que ele sinta que você tem empatia quando ele lhe contar algo que está passando. Chegue mais cedo para curtir com ele algo que está aprendendo e para insistir que ele capriche naquilo que faz e não se contente com o trabalho qualquer. Chegue perto quando ele estiver com medo e abrace e diga que acredita nele e motive que ele siga em frente, pois se cair você estará ao lado. Chegue em casa e conte algo bom de seu dia. Chegue perto de sua mulher ou de seu marido e a/o elogie na frente dos filhos para que eles sintam que em sua casa há amor e ternura. Chegue com atitude solidária e faça com que todos ajudem nas pequenas tarefas diárias como arrumar a própria cama, fazer o lanche antes de sair, naquele dia da faxina geral, na ida ao supermercado. Chegue um pouco mais perto da melhor versão de si mesmo.


Quem ama cuida. Quem ama não aceita do outro que ele se maltrate ou faça mal a outras pessoas. Que ama educa. Não como um sacrifício e sim como um sacro-ofício, uma atitude que é sagrada e valiosa.


E você, o que pode fazer hoje para que seu filho sinta na alma que ele tem um pai, uma mãe, que representa o melhor que há em ser humano?


Texto: Leo Fraiman | Imagem: Depositphotos

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